sábado, 6 de dezembro de 2008

Maria imaginário

Um mundo Dellicious

Maria Imaginário, 22 anos, é ilustradora freelancer, no papel e na parede. Esconde a cara. O facto de pintar nas ruas exige anonimato. Dentro da mochila trás as tintas de spray, com as quais tenta dar a cor que gosta a Lisboa, com o projecto Dellicious. Já passam das 19h quando entra nos Anjos, no centro de Lisboa. Vai ao encontro de um edifício devoluto, no largo de Cabeço de Bola.

Maria senta-se durante uns minutos, de papel e lápis na mão a observar a parede: um edifício cinzento, abandonado, de janelas e portas cerradas a cimento. Por fim decide fazer três doces, um gelado em cada uma das janelas e um pudim na porta.

A ideia de Maria não é só deixar Lisboa mais bonita. É também tentar sensibilizar as pessoas, para questões do foro urbanístico “Há tantas casas abandonadas, mesmo no centro de Lisboa, que poderiam ter tantas utilidades. Revolta-me taparem as janelas e as portas com cimento”, diz.
Revolta-a também os prédios devolutos. “No outro dia passei numa rua que liga o Saldanha ao Técnico, com prédios lindíssimos,e só três estavam habitados. Os outros estavam todos abandonados. As pessoas nem reparam, mas se olharem para cima, atentamente, vêem as janelas partidas, portas com cadeados. Numa cidade cosmopolita e moderna não é normal e o Estado não lhe da nenhuma função, acho que é uma falha gigante”, refere.

As pessoas passam, distraidamente. Algumas nem reparam no que por aqui começa a nascer. Há quem olhe e comente. Frederico Ribeiro, 48 anos, é comerciante. “Obrigado por estarem a fazer um gelado na minha rua!”. Frederico é, completamente, a favor destas intervenções. Para ele, existe uma grande quantidade de edifícios esquecidos pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). que não deveriam ser abandonados. “Considero arte este painel e acho que ficaria muito bem e daria mais vida ao largo de Cabeço de Bola. Devia existir medidas políticas para que não houvessem tantos imóveis no estado de abandono completo, em ruína”.
Há, no entanto, pessoas que não são da mesma opinião. Minutos depois aparecem dois agentes da PSP. Um deles pede a identificação a Maria. “Sabe que o que está a fazer é crime público? Houve um denúncia”.


Maria Imaginário explica que está a desenvolver um projecto para apresentar a CML. Pretende mostrar o edifício devoluto depois de o pintar e incentivar a câmara a dar uma utilidade ao mesmo. “Quero tirar uma fotografia do antes e do depois e propor à CML, por exemplo, a criação de actividades de tempos livres ou outras acções que visem o melhoramento de uma cidade com tantos prédios abandonados e sem utilidade”, diz.

“Vejo os meus graffitis como uma ilustração da cidade”

Num tom de menina inocente conta, cuidadosamente, todos os seus projectos. Explica que não está aqui para vandalizar, mas sim para sensibilizar. Sublinha a distância da cultura dos graffiters: “Não faço graffitis para marcar território, mas para tornar os lugares mais bonitos. Nunca pintaria em paredes novas ou em prédios habitados”. No fim, artista e agentes chegam a um acordo: voltar no dia seguinte para terminar o trabalho, tirar a fotografia e limpar.

E no dia seguinte estão de volta. São 20h quando regressa de novo ao edifício devoluto. Maria continua a fazer o graffiti, desta vez, sob vigilância dos dois polícias. Dada a situação, as pessoas ao passarem reparam mais no que por ali se faz.

Jorge Mourão, 38 anos, é funcionário da CML e morador da rua. Não concorda com o graffiti. Aquele que suja e que apenas faz umas assinaturas de afirmação urbana sem qualquer sentido estético. Mas realça: “neste caso acho que sim, é uma intervenção plástica que quer chamar a atenção para o problema dos edifícios devolutos. É preciso habitar a cidade de Lisboa e, precisamente, para estes edifícios abandonados”. Neste caso concorda, mas jamais aprovaria se fosse num prédio habitado. “Acho que é uma forma de intervenção social e de cidadania muito interessante e como forma de chamar atenção para um problema por via da criatividade, acho magnifico, parabéns, fotografem e divulguem”.

Carla Azevedo

1 comentário:

Francisco Castelo Branco disse...

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