Uma leitura diferente dos comuns mortais
Há quem perca uma hora no ginásio, em frente à televisão ou no computador. As comunidades de leitores dedicam essa hora a discutir criticamente um livro.
A comunidade de leitores “Linguagem Literária e Linguagem Pictórica” acontece quinzenalmente na Culturgest, sob a orientação da Helena Vasconcelos, coordenadora há já sete anos. O lema: “Mais que uma comunidade de leitores, um grupo de amigos.”
Já passa das 18:00h, uma sala agradável, um cenário descontraído. As pessoas dispersam-se pelos sofás e cadeiras existentes. Cerca de 35 lugares, ocupados maioritariamente por mulheres. Dezanove mulheres e cinco homens. “Neste espaço, o público é muito fiel e é quase impossível haver membros novos”, refere a coordenadora Helena Vasconcelos.
São 18:40h. Fecham-se as portas. “Vamos começar.” Analisam o livro “O Iluminador” de Brenda Rickman Vantrease. Helena começa por introduzir o livro no espaço e no tempo. “Fartei-me de fazer pesquisas”, diz. Para além de lerem o livro, têm o cuidado de perceberem a veracidade dos factos, se de facto respeitam a história. “O que nos interessa é a conversa, o pensar sobre o livro.” Têm uma conversa crítica, mas bastante animada. Discordam construtivamente uns dos outros. Pelo meio, a partilha de histórias, as experiências de cada um.
“É uma leitura diferente das dos comuns mortais.” Analisam cada item do livro, nem a tradução escapa. Torna-se numa contínua aprendizagem, porque não se limitam a ler o livro, mas pesquisam historicamente para além do livro. O tempo passa. Deixam de dissertar sobre o livro, para focar a época, a história, a religião de que fala o livro. Já passam das 20:00h quando a sessão termina.
O Objectivo de Helena: “Ao longo da leitura destas obras, tentaremos descobrir a forma como, através da escrita, os artistas nos contam histórias, oferecendo pistas, enigmas e ilusão, à medida que se desvendam a si próprios e nos facultam a chave para a compreensão da sua arte e do seu tempo.”
“Porque ler é uma forma de resistência… Porque ler é uma forma de partilha”
“Porque cada leitor tem o direito à comunhão com outros leitores…”, é o lema de Almedina.
A comunidade de leitores Almedina é coordenada há três anos por Filipa Melo. Um ambiente informal, dentro da livraria Almedina. Todas as sessões são abertas ao público em geral. Partilham a experiência de reler em voz alta um livro de ficção portuguesa contemporânea. “Não há inscrições, nem imposições”, diz Filipa. Analisam o livro “Breviário das Más Inclinações”, de José Riço Direitinho, paralelamente com “Gente Independente”, de Halldór Laxness.
Passam uns minutos das 19:00h quando a sessão começa. O cenário é bastante informal, cadeiras dispostas ao fundo da livraria. Há lugares para 30/40 pessoas mas, apesar da presença do autor José Riço Direitinho, a sessão conta apenas com 15 pessoas (oito mulheres e sete homens). Normalmente, assistem mais pessoas nas sessões com os autores. Reúne-se na primeira e na última quarta-feira de cada vez. Na última, está presente o autor português em destaque.
O público é heterogéneo, numa média de 15/20 participantes. Depende se é dia de estar presente um autor e qual o autor em questão. “Há novos membros todas as sessões, não há um grupo fiel”, refere Filipa.
Carla Azevedo