sábado, 3 de janeiro de 2009

Surfing the Sky



Carla Azevedo

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Comunidades de Leitores

Uma leitura diferente dos comuns mortais

Há quem perca uma hora no ginásio, em frente à televisão ou no computador. As comunidades de leitores dedicam essa hora a discutir criticamente um livro.

A comunidade de leitores “Linguagem Literária e Linguagem Pictórica” acontece quinzenalmente na Culturgest, sob a orientação da Helena Vasconcelos, coordenadora há já sete anos. O lema: “Mais que uma comunidade de leitores, um grupo de amigos.”

Já passa das 18:00h, uma sala agradável, um cenário descontraído. As pessoas dispersam-se pelos sofás e cadeiras existentes. Cerca de 35 lugares, ocupados maioritariamente por mulheres. Dezanove mulheres e cinco homens. “Neste espaço, o público é muito fiel e é quase impossível haver membros novos”, refere a coordenadora Helena Vasconcelos.

São 18:40h. Fecham-se as portas. “Vamos começar.” Analisam o livro “O Iluminador” de Brenda Rickman Vantrease. Helena começa por introduzir o livro no espaço e no tempo. “Fartei-me de fazer pesquisas”, diz. Para além de lerem o livro, têm o cuidado de perceberem a veracidade dos factos, se de facto respeitam a história. “O que nos interessa é a conversa, o pensar sobre o livro.” Têm uma conversa crítica, mas bastante animada. Discordam construtivamente uns dos outros. Pelo meio, a partilha de histórias, as experiências de cada um.
“É uma leitura diferente das dos comuns mortais.” Analisam cada item do livro, nem a tradução escapa. Torna-se numa contínua aprendizagem, porque não se limitam a ler o livro, mas pesquisam historicamente para além do livro. O tempo passa. Deixam de dissertar sobre o livro, para focar a época, a história, a religião de que fala o livro. Já passam das 20:00h quando a sessão termina.
O Objectivo de Helena: “Ao longo da leitura destas obras, tentaremos descobrir a forma como, através da escrita, os artistas nos contam histórias, oferecendo pistas, enigmas e ilusão, à medida que se desvendam a si próprios e nos facultam a chave para a compreensão da sua arte e do seu tempo.”

“Porque ler é uma forma de resistência… Porque ler é uma forma de partilha”

“Porque cada leitor tem o direito à comunhão com outros leitores…”, é o lema de Almedina.
A comunidade de leitores Almedina é coordenada há três anos por Filipa Melo. Um ambiente informal, dentro da livraria Almedina. Todas as sessões são abertas ao público em geral. Partilham a experiência de reler em voz alta um livro de ficção portuguesa contemporânea. “Não há inscrições, nem imposições”, diz Filipa. Analisam o livro “Breviário das Más Inclinações”, de José Riço Direitinho, paralelamente com “Gente Independente”, de Halldór Laxness.
Passam uns minutos das 19:00h quando a sessão começa. O cenário é bastante informal, cadeiras dispostas ao fundo da livraria. Há lugares para 30/40 pessoas mas, apesar da presença do autor José Riço Direitinho, a sessão conta apenas com 15 pessoas (oito mulheres e sete homens). Normalmente, assistem mais pessoas nas sessões com os autores. Reúne-se na primeira e na última quarta-feira de cada vez. Na última, está presente o autor português em destaque.
O público é heterogéneo, numa média de 15/20 participantes. Depende se é dia de estar presente um autor e qual o autor em questão. “Há novos membros todas as sessões, não há um grupo fiel”, refere Filipa.
Se ficou curioso, poderá obter mais informações em www.culturgest.pt/ e www.almedina.net/
Carla Azevedo

sábado, 6 de dezembro de 2008

Maria imaginário

Um mundo Dellicious

Maria Imaginário, 22 anos, é ilustradora freelancer, no papel e na parede. Esconde a cara. O facto de pintar nas ruas exige anonimato. Dentro da mochila trás as tintas de spray, com as quais tenta dar a cor que gosta a Lisboa, com o projecto Dellicious. Já passam das 19h quando entra nos Anjos, no centro de Lisboa. Vai ao encontro de um edifício devoluto, no largo de Cabeço de Bola.

Maria senta-se durante uns minutos, de papel e lápis na mão a observar a parede: um edifício cinzento, abandonado, de janelas e portas cerradas a cimento. Por fim decide fazer três doces, um gelado em cada uma das janelas e um pudim na porta.

A ideia de Maria não é só deixar Lisboa mais bonita. É também tentar sensibilizar as pessoas, para questões do foro urbanístico “Há tantas casas abandonadas, mesmo no centro de Lisboa, que poderiam ter tantas utilidades. Revolta-me taparem as janelas e as portas com cimento”, diz.
Revolta-a também os prédios devolutos. “No outro dia passei numa rua que liga o Saldanha ao Técnico, com prédios lindíssimos,e só três estavam habitados. Os outros estavam todos abandonados. As pessoas nem reparam, mas se olharem para cima, atentamente, vêem as janelas partidas, portas com cadeados. Numa cidade cosmopolita e moderna não é normal e o Estado não lhe da nenhuma função, acho que é uma falha gigante”, refere.

As pessoas passam, distraidamente. Algumas nem reparam no que por aqui começa a nascer. Há quem olhe e comente. Frederico Ribeiro, 48 anos, é comerciante. “Obrigado por estarem a fazer um gelado na minha rua!”. Frederico é, completamente, a favor destas intervenções. Para ele, existe uma grande quantidade de edifícios esquecidos pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). que não deveriam ser abandonados. “Considero arte este painel e acho que ficaria muito bem e daria mais vida ao largo de Cabeço de Bola. Devia existir medidas políticas para que não houvessem tantos imóveis no estado de abandono completo, em ruína”.
Há, no entanto, pessoas que não são da mesma opinião. Minutos depois aparecem dois agentes da PSP. Um deles pede a identificação a Maria. “Sabe que o que está a fazer é crime público? Houve um denúncia”.


Maria Imaginário explica que está a desenvolver um projecto para apresentar a CML. Pretende mostrar o edifício devoluto depois de o pintar e incentivar a câmara a dar uma utilidade ao mesmo. “Quero tirar uma fotografia do antes e do depois e propor à CML, por exemplo, a criação de actividades de tempos livres ou outras acções que visem o melhoramento de uma cidade com tantos prédios abandonados e sem utilidade”, diz.

“Vejo os meus graffitis como uma ilustração da cidade”

Num tom de menina inocente conta, cuidadosamente, todos os seus projectos. Explica que não está aqui para vandalizar, mas sim para sensibilizar. Sublinha a distância da cultura dos graffiters: “Não faço graffitis para marcar território, mas para tornar os lugares mais bonitos. Nunca pintaria em paredes novas ou em prédios habitados”. No fim, artista e agentes chegam a um acordo: voltar no dia seguinte para terminar o trabalho, tirar a fotografia e limpar.

E no dia seguinte estão de volta. São 20h quando regressa de novo ao edifício devoluto. Maria continua a fazer o graffiti, desta vez, sob vigilância dos dois polícias. Dada a situação, as pessoas ao passarem reparam mais no que por ali se faz.

Jorge Mourão, 38 anos, é funcionário da CML e morador da rua. Não concorda com o graffiti. Aquele que suja e que apenas faz umas assinaturas de afirmação urbana sem qualquer sentido estético. Mas realça: “neste caso acho que sim, é uma intervenção plástica que quer chamar a atenção para o problema dos edifícios devolutos. É preciso habitar a cidade de Lisboa e, precisamente, para estes edifícios abandonados”. Neste caso concorda, mas jamais aprovaria se fosse num prédio habitado. “Acho que é uma forma de intervenção social e de cidadania muito interessante e como forma de chamar atenção para um problema por via da criatividade, acho magnifico, parabéns, fotografem e divulguem”.

Carla Azevedo